Pular para o conteúdo principal

Uma viagem no tempo

Deixando para trás a imensidão e a modernidade de Tokyo, fomos mergulhar no Japão antigo. Partimos para a cidade de Takayma, incrustada em um vale  em torno do chamado Alpes Japoneses. Ali, ainda se vive da mesma forma do período Edo com a todas as casas mantendo a arquitetura daquela época. Além disso, as pessoas que moram lá mantêm também os antigos hábitos. A cidade vira fantasma depois das cinco da tarde e olha que chegamos lá para passar o fim de semana.

Se este era mesmo o espírito, resolvemos experimentar ao máximo e nos hospedamos em um Ryokan. O Sumiyoshi  é gerido por uma família japonesa com um vocabulário reduzido de palavras em inglês. A reserva foi feita diretamente pelo site/e-mail e o pagamento é em dinheiro. A gentileza dos anfitrões supera qualquer problema com a língua. Entre gestos e sorrisos, entendemos perfeitamente onde eram os banheiros públicos - caso quisemos usar, sendo que o quarto que reservamos tinha um privado - os jardins e o esquema de funcionamento.  Que era simples assim: no quarto, com tatame e uma mesa, haviam dois quimonos, deveriam nos trocar e esperar o jantar às 19h. Em seguida, a mesa era retirada e entravam os futons e travesseiros para dormir. No dia seguinte, voltavam a colocar a mesa para o café da manhã. Detalhe: nada de opções ocidentais. Tanto o jantar como o café foram tipicamente japoneses com direito a chá no fim de cada de um deles. Na vista da nossa janela, o rio Miyagawa, onde funciona uma pequena feira nas suas margens aos domingos.

Nosso quarto no Ryokan

O jantar típico japonês


A vsita da nossa janela

Nossa querida anfitriã


Sendo sábado à noite, resolvemos sair um pouco antes de dormir trajando os próprios quimonos. Não havia ninguém na avenida principal da cidade: a Sannomachi. Tentamos entrar em um karaokê e são salas reservadas; arriscamos um café mas estava fechando; encontramos, enfim, um pequeno bar com alguns jovens que tentavam se comunicar via Google Translate. Nos enchemos de sakê e rimos muito com aquela miscelânea de palavras desencontradas.

Dos pontos turísticos, visitamos o museu onde estão guardados os "carros alegóricos" de um dos maiores festival do Japão que acontece duas vezes por ano em Takayama: maio e outubro. Desfilam por suas ruas 12  santuários que homenageiam os principais ancestrais carregados pela população local. São ricamente decorados , com um trabalho de madeira esculpida e 4 deles ainda tem maionetes representando vários deuses e nobres.

A exposição dos oratórios

Vizinho dali, existe uma exposição em miniatura do templo Nikko, localizado na cidade de Tochigi, perto de Tokyo. A maquete levou mais de 15 anos para ficar pronta e tem 28 pequenas construções feitas por 33 artesões.

Quinze minutos afastado da cidade, partindo de ônibus da rodoviária, está o Hida Folk Village. Neste parque,  aberto em 1971, estão preservados casas e o modo de vida dos antigos habitantes da região. Foram trazidas para lá 30 moradias de diversas partes de província de Hida. Em alguns casas, se pode acompanhar as atividades dos moradores como a fabricação de papel, a cerâmica e o plantio de arroz ainda sendo fonte de sobrevivência nos dias de hoje.

Visão geral Hida Folk

A simpática Takayama tem um amuleto próprio: o Sarubobo, literalmente macaco bebê. Ele é originalmente vermelho e sem rosto para afugentar os maus espíritos. Era uma presente feito para as avós darem aos seus netos. Nas lojas de souvenirs, há já uma variação de cores com cada um tendo outros significados além de sorte em si.

Opções de cores do amuleto da cidade

De dica gastrômica, comemos o tradicional Hida Beef no restaurante Kyoka. Uma mini churrasqueira de carvão fica em cada mesa e a gente vai grelhando a carne, os legumes e frutos do mar. Mais uma delícia que não podem deixar de experimentar.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pantalica: um cemitério incrustado em rochas

Visitar cemitérios faz parte de alguns roteiros turísticos como o Pere Lachaise em Paris que tem túmulos de pessoas famosas como Honoré de Balzac,  Maria Callas, Frédéric Chopin, Eugène Delacroix, Molière, Yves Montand, Jim Morrison e  Edith Piaf. Agora imagina um com mais de 5.000 tumbas datadas dos Séculos XIII ao VII a.C? Claro que não sabemos quem foi enterrado por lá, mas é uma passeio pelo pré-história visitar a Necrópole Rochosa de Pantalica. O nome deriva do grego πάνταλίθος = lugar das pedras ou do árabe buntarigah = lugar das cavernas, mostrando mais uma vez as influências na Sicília. Pantalica está localizada em um platô envolto por cânions formado pelos rios Anapo e Calcinara. Chegando lá dá para escolher duas trilhas distintas: uma mais longa e outra um pouco mais acessível. Pela Vale Anapo, a trilha tem cerca de 10km na antiga rota entre Siracusa e Vizzini.  A outra é ser feita pela Sella di Filiporto, começando da região de Ferla ou, pelo outro lado, em So...

Positano: porquê o mundo é assim?

Falando em tecnologia e arquitetura, ao chegar em Positano e ver aquele lugar realmente especial e lindo construído sobre um morro me perguntei o tempo todo: porquê com a mesma geografia, o mesmo homem pode criar uma cidade como aquela e ao mesmo tempo as favelas no Rio de Janeiro? O que faz termos nas mesmas condições de terreno, soluções tão diferentes? Talvez seja o frio. Mas Positano está na Costiera Almafitana, na Campania, onde nem é tão frio. O tamanho pode ser a desculpa. A cidade italiana tem 8 km, bem maior que o Pavão-Pavãozinho que vejo da minha janela. Construída entre os séculos 16 e 17,  foi habitada por australianos e era até um povoado pobre até ser descoberta como ponto turístico e cenários de filmes como "Only you", "Sob o sol da Toscana", " O talentoso Mr. Ripley". Aqui, tudo é mais sem cor,  sem charme e o que aparece no cinema, são as cenas de violência. Deveríamos importar esse tipo de cultura e pensamento. Uma dica: ao chegar de car...

Ceraudo: um oásis na Calabria profunda

A Calabria, no sul da Itália, não é um rota turística muito comum. Para nós, brasileiros, por causa da imigração, existe uma ligação maior dado o número de habitantes desta região que veio para cá nos séculos 19 e 20. Eu mesma tenho sangue calabrês em minhas veias por parte do meu avô paterno. O valor sentimental foi reforçado pelo casamento e por ter ido tanta vezes lá, por causa dos meus sogros. Esta viagem, a "descoberta" ficou por conta da Tenuta Ceraudo , na pequena Strongoli, vizinha a Crotone, cidade onde minha sogra ficou hospitalizada e acabou falecendo. O motivo, que não era um dos mais felizes, acabou se convertando em um dia de verdadeiro oásis em meio a uma propriedade lindíssima com oliveiras e vinhedos centenários, um restaraurante estrelado e uma família acolhedora. Sim, como manda a boa tradição italiana, a alma de um lugar corresponde a de seu dono. Neste caso, o nosso anfitrião Roberto. Ele poderia ter sido apenas mais um agricultor da região ou até se torn...