Cabelos brancos cortados ao estilo moicano, bermuda, camiseta regata, havaianas no pé e uma insólita coleira no pescoço. Ao falar bom dia, ele responde com um au, au. Cachorrão, como é conhecido, é um dos mais emblemáticos guia turístico e morador de Fernando de Noronha. Leva a vida "boa para cachorro" mostrando as belezas da ilha e da praia do Sancho, considerada a mais bonita do mundo.
Se por um lado o exotismo impera, do outro conhecemos o Manoel Galdino Alves, seu nome de batismo e o que está no B.O como gosta de frisar. Desde que chegou a ilha há 28 anos, habita uma casa que era uma antiga ruína na Praia do Cachorro com a mulher, dois filhos, cachorros, gatos e galos. Lá, resolveu fazer uma cozinha e uma reforma geral e foi aí que começaram os problemas com a administração. Sendo um imóvel tombado, haveria uma série de restrições de materiais a ser usados. Enquanto os órgãos fiscalizadores discutiam, ele optou por vidro, telhas comuns e um verde musgo para pintar as paredes "pois assim ficaria camuflado com a natureza".
No local, funciona atualmente um modesto restaurante. Mas já viveu dias de glória quando ele dividia a propriedade com um sócio italiano que cozinhava e cuidava com mais apreço da decoração. Só que esta não era a vibe do Cachorrão. Ele quer ficar livre para atender os turistas pela ilha e com a "ilegalidade" não pode avançar muito mais do que é hoje. "Com o B.O, perdi as vantagens de ser um cidadão legalizado e não tenho direito, por exemplo, a passagem subsidiada de avião para mim e meus parentes diretos", comenta. "Só que não me importo com isso...porquê não tenho nenhum interesse em sair daqui. Vivo no melhor lugar do mundo".
Essa dicotomia entre a natureza e a burocracia é constante em Fernando de Noronha e pode explicar o motivo de ser um lugar tão caro e tão precário ao mesmo tempo. A ilha é administrada pela prefeitura de Recife, mas Estado, Forças Armadas e ICMBio também dão seus pitacos e onde muitos mandam, ninguém é realmente responsável, principalmente na hora de colocar a mão no bolso.
Para entrar e ficar na ilha, o turista paga a taxa de preservação ambiental de 64,25 por dia, sendo que é permitido a permanência máxima de 700 forasteiros por vez. Em um ano de lotação plena, a arrecadação pode chegar a R$ 16.415. 875, 00 que fica 100% na ilha para atender os 3.500 moradores com 3 escolas, um hospital de atendimento básico e a limpeza e tratamento do lixo e esgoto. Nenhuma verba é empregada para a manutenção das ruas. A única asfaltada é a BR que vai do Porto a praia do Sueste em um total de 7 km. As demais incluindo o centro da Vila dos Remédios foram feitas há anos de pedra - entendo que seja uma opção mais ecológica - e nunca mais consertada. Os buracos são enormes para os frágeis buggies que predominam como transporte local.
Para acessar as principais praias e o trilhas, deve se comprar o ingresso do Parque Nacional Marinho, no valor de 89, 00 para brasileiros e 178,00 para estrangeiros que vale por 10 dias. Atenção: mesmo podendo pagar on-line, os agendamentos são feitos só pessoalmente ou pela pousada como uma gentileza para o hóspede. Para se ter uma ideia, a trilha do Atalaia, tem que ser reservada com até 10 dias de antecedência, Conta básica novamente se a ilha estiver 100% ocupada nos 356 dias do ano: R$ 22.739.500,00. Também entendi que muitas melhorias foram feitas, porém a conservação continua inadequada. As duchas de água doce da Praia do Sueste e do Sancho não funcionavam e o banheiro do Sancho tinha as duas portas quebradas.
Os valores são absurdos em termos de custo/benefício. Mas para a administração pública funciona o velho jargão de colocar dificuldades, para vender facilidades. O que pode justificar que Cachorrão e outros moradores da ilha não tenham desenvolvido o espírito empreendedor característico dos brasileiros.
A maior parte dos prestadores de serviço é bem gentil dado que estão de bem com a vida e passam isso aos turistas. Só que a qualidade do serviço prestado não se resume ao sorriso. Exemplos não falta: a empresa de mergulho Águas Claras cobra R$ 450,00 pelo batismo guiado e o barco está velho e enferrujado. Os buggies alugados a preço médio de R$ 220,00 a diária estão sem cinto de segurança, assoalho furado e até sem breque.
A explicação que ouvi de alguns nativos é que só é possível investir com capital externo, opção refutada pelo Cachorrão. As pousadas de luxo como Maravilha, Teju-Açu, Zé Maria que contam com sócios investidores e um ótimo marketing, são realmente bonitas só que com o preço da diária maior do que o Copacabana Palace ou Fasano. Então, em termos de comparação fica difícil defender esses valores.
Com jornalista, adoraria ira a fundo na estória do Manuel Galdino, tirando a máscara do folclórico personagem. Ali, na sua origem e nos quase 30 anos de ilha, talvez conseguisse traçar um retrato mais próximo da realidade. Desta fez, fui como turista e voltei cheia de perguntas sem respostas.
Queria entender o fascínio de que tanta gente querer desfrutar do estilo de vida atual do Cachorrão mesmo cercado de regras para todo o lado. Tudo tem de ser agendado e antes de qualquer passeio, tem um enorme manual de conduta do que pode ou não se pode fazer. Chega-se ao cúmulo de se proibir o uso de filtro solar em um ilha a 4 graus de distância do Equador. Tudo em nome da preservação. O que é bastante louvável em termos de natureza, só que absurdamente cansativo. Não são férias tranquilas. É função em cima de função sem qualquer tipo de mordomia a preço de ouro.
Ao atrair o turismo como fazem, fica a pergunta: será o rústico é o novo luxo? Será que os ricos brasileiros querem mesmo ter seu momento pé na areia pagando e protegendo esse life style roots total? Esse será o custo que pagamos por ter destruído a natureza em outras paragens? Pelo sucesso de Fernando de Noronha, parece que sim....eu que sou a curva fora do ponto neste sentido.
UPDATE: Voltei a Ilha em Junho de 2017. As ruas continuam esburacadas, as portas dos banheiros continuam quebrada sendo que agora tem problema no Sueste também. A trilha do Atalaia não teve nenhuma melhoria. A vantagem só que os mergulhos foram sensacionais e sendo que estava em grupo coorporativo, pude curtir sem me preocupar com valores, reservas e transfer. Isso ajuda muita a melhorar o olhar para lá.
Se por um lado o exotismo impera, do outro conhecemos o Manoel Galdino Alves, seu nome de batismo e o que está no B.O como gosta de frisar. Desde que chegou a ilha há 28 anos, habita uma casa que era uma antiga ruína na Praia do Cachorro com a mulher, dois filhos, cachorros, gatos e galos. Lá, resolveu fazer uma cozinha e uma reforma geral e foi aí que começaram os problemas com a administração. Sendo um imóvel tombado, haveria uma série de restrições de materiais a ser usados. Enquanto os órgãos fiscalizadores discutiam, ele optou por vidro, telhas comuns e um verde musgo para pintar as paredes "pois assim ficaria camuflado com a natureza".
No local, funciona atualmente um modesto restaurante. Mas já viveu dias de glória quando ele dividia a propriedade com um sócio italiano que cozinhava e cuidava com mais apreço da decoração. Só que esta não era a vibe do Cachorrão. Ele quer ficar livre para atender os turistas pela ilha e com a "ilegalidade" não pode avançar muito mais do que é hoje. "Com o B.O, perdi as vantagens de ser um cidadão legalizado e não tenho direito, por exemplo, a passagem subsidiada de avião para mim e meus parentes diretos", comenta. "Só que não me importo com isso...porquê não tenho nenhum interesse em sair daqui. Vivo no melhor lugar do mundo".
Essa dicotomia entre a natureza e a burocracia é constante em Fernando de Noronha e pode explicar o motivo de ser um lugar tão caro e tão precário ao mesmo tempo. A ilha é administrada pela prefeitura de Recife, mas Estado, Forças Armadas e ICMBio também dão seus pitacos e onde muitos mandam, ninguém é realmente responsável, principalmente na hora de colocar a mão no bolso.
Para entrar e ficar na ilha, o turista paga a taxa de preservação ambiental de 64,25 por dia, sendo que é permitido a permanência máxima de 700 forasteiros por vez. Em um ano de lotação plena, a arrecadação pode chegar a R$ 16.415. 875, 00 que fica 100% na ilha para atender os 3.500 moradores com 3 escolas, um hospital de atendimento básico e a limpeza e tratamento do lixo e esgoto. Nenhuma verba é empregada para a manutenção das ruas. A única asfaltada é a BR que vai do Porto a praia do Sueste em um total de 7 km. As demais incluindo o centro da Vila dos Remédios foram feitas há anos de pedra - entendo que seja uma opção mais ecológica - e nunca mais consertada. Os buracos são enormes para os frágeis buggies que predominam como transporte local.
Para acessar as principais praias e o trilhas, deve se comprar o ingresso do Parque Nacional Marinho, no valor de 89, 00 para brasileiros e 178,00 para estrangeiros que vale por 10 dias. Atenção: mesmo podendo pagar on-line, os agendamentos são feitos só pessoalmente ou pela pousada como uma gentileza para o hóspede. Para se ter uma ideia, a trilha do Atalaia, tem que ser reservada com até 10 dias de antecedência, Conta básica novamente se a ilha estiver 100% ocupada nos 356 dias do ano: R$ 22.739.500,00. Também entendi que muitas melhorias foram feitas, porém a conservação continua inadequada. As duchas de água doce da Praia do Sueste e do Sancho não funcionavam e o banheiro do Sancho tinha as duas portas quebradas.
Os valores são absurdos em termos de custo/benefício. Mas para a administração pública funciona o velho jargão de colocar dificuldades, para vender facilidades. O que pode justificar que Cachorrão e outros moradores da ilha não tenham desenvolvido o espírito empreendedor característico dos brasileiros.
A maior parte dos prestadores de serviço é bem gentil dado que estão de bem com a vida e passam isso aos turistas. Só que a qualidade do serviço prestado não se resume ao sorriso. Exemplos não falta: a empresa de mergulho Águas Claras cobra R$ 450,00 pelo batismo guiado e o barco está velho e enferrujado. Os buggies alugados a preço médio de R$ 220,00 a diária estão sem cinto de segurança, assoalho furado e até sem breque.
A explicação que ouvi de alguns nativos é que só é possível investir com capital externo, opção refutada pelo Cachorrão. As pousadas de luxo como Maravilha, Teju-Açu, Zé Maria que contam com sócios investidores e um ótimo marketing, são realmente bonitas só que com o preço da diária maior do que o Copacabana Palace ou Fasano. Então, em termos de comparação fica difícil defender esses valores.
Com jornalista, adoraria ira a fundo na estória do Manuel Galdino, tirando a máscara do folclórico personagem. Ali, na sua origem e nos quase 30 anos de ilha, talvez conseguisse traçar um retrato mais próximo da realidade. Desta fez, fui como turista e voltei cheia de perguntas sem respostas.
Ao atrair o turismo como fazem, fica a pergunta: será o rústico é o novo luxo? Será que os ricos brasileiros querem mesmo ter seu momento pé na areia pagando e protegendo esse life style roots total? Esse será o custo que pagamos por ter destruído a natureza em outras paragens? Pelo sucesso de Fernando de Noronha, parece que sim....eu que sou a curva fora do ponto neste sentido.
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Cachorrão, uma figura de Fernando de Noronha |
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Praia do Sancho - a mais bonita do mundo |
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