Pular para o conteúdo principal

Safed: religão e arte

Depois de descermos no local mais baixo da terra, resolvemos subir para a cidade mais alta de Israel: Safed. Do alto de suas varandas, se pode avistar todo a Galiléia com montanhas verdes e o pico branco do Monte Hermon.
Mas não é para fora que se deve olhar quando se visita a cidade e sim para suas pequenas ruas antigas, delicadas e cheias de história para contar. Evidentemente, Safed não escapa do eterno conflito judeus-árabes. Por lá, os bairros também são separados e a convivência nem sempre é pacífica. Há menos de 10 anos, foi atingida por mísseis lançados pelo Hezbollah.
Do seu passado, guarda o título de  uma das quatro cidades sagradas de Israel. Ela tem sido um centro espiritual desde os anos de 1600, quando era o centro da Cabala (o misticismo judeu). Os místicos cabalistas viveram, estudaram, ensinaram e escreveram na cidade, a muitos dos seus túmulos são objetos de veneração.
Essa veneração e até obstinação é mantida pela parte ortodoxa dos judeus que mantêm entre suas tradições velhos costumes como não trabalhar, prociar sem parar e até estigmatizar quem não pertence a sua "tribo". Sendo mulher, passei por duas situações bem "estranhas". Ao pedir informações aos jovens judeus, eles simplesmente não me respondiam. Um deles fechou a porta da casa em minha cara e o outro, olhou muito feio para o meu marido quase perguntando: "como ela se atreve em me dirigir a palavra?"Esse tipo de atitude tem espantando os turistas que deixam de aproveitar o lado bom e lúdico da cidade. O antigo bairro árabe hoje está povoado de artistas e galerias de arte.
Chegamos no sábado ainda no Sabbath, ou seja, sem lugar para comer, mas muito bem recebidos no Hotel Palace Domain. O francês Jean Yves rodou o mundo para comprar uma antiga casa e transformá-la em um hotel boutique com quartos ricamente decorados. Por fora, a ideia que se passa é de quase uma pensão. Quando se abre a porta, um mundo se abre de arte e bom gosto com quadros pintados por ele em todos os ambientes. Conversamos muito sobre como essa questão religiosa tem atrapalhado o turismo e perguntando sobre sua religão, ele foi categórico: "sou israelense!" Um dos poucos que separa o Estado da Igreja na condução de seu negócio.
Depois da experiência da noite de ter tudo fechado e não encontrarmos um local para jantar (formos salvos por uma família dona de uma bar/galeria que foi toda para a cozinha para nos atender), no domingo a cidade acordou outra. O sol brilhava, As pessoas estava nas ruas. Os galeristas mostravam seus trabalhos. Os religiosos nos davam benção. Saimos de lá com pulseirinhas de proteção da Cabala, quadros, cerâmica e a certeza que não se pode julgar nada pela primeira impressão. Safed é um espécie de Taormina com Embu das Artes. Que vale a pena ser visitada inclusive por causa destas diferenças gritantes entre seus habitantes.
Vista das ruas de Safed: onde o passado e a arte se encontram
Vista do Lobby do hotel

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pantalica: um cemitério incrustado em rochas

Visitar cemitérios faz parte de alguns roteiros turísticos como o Pere Lachaise em Paris que tem túmulos de pessoas famosas como Honoré de Balzac,  Maria Callas, Frédéric Chopin, Eugène Delacroix, Molière, Yves Montand, Jim Morrison e  Edith Piaf. Agora imagina um com mais de 5.000 tumbas datadas dos Séculos XIII ao VII a.C? Claro que não sabemos quem foi enterrado por lá, mas é uma passeio pelo pré-história visitar a Necrópole Rochosa de Pantalica. O nome deriva do grego πάνταλίθος = lugar das pedras ou do árabe buntarigah = lugar das cavernas, mostrando mais uma vez as influências na Sicília. Pantalica está localizada em um platô envolto por cânions formado pelos rios Anapo e Calcinara. Chegando lá dá para escolher duas trilhas distintas: uma mais longa e outra um pouco mais acessível. Pela Vale Anapo, a trilha tem cerca de 10km na antiga rota entre Siracusa e Vizzini.  A outra é ser feita pela Sella di Filiporto, começando da região de Ferla ou, pelo outro lado, em So...

Positano: porquê o mundo é assim?

Falando em tecnologia e arquitetura, ao chegar em Positano e ver aquele lugar realmente especial e lindo construído sobre um morro me perguntei o tempo todo: porquê com a mesma geografia, o mesmo homem pode criar uma cidade como aquela e ao mesmo tempo as favelas no Rio de Janeiro? O que faz termos nas mesmas condições de terreno, soluções tão diferentes? Talvez seja o frio. Mas Positano está na Costiera Almafitana, na Campania, onde nem é tão frio. O tamanho pode ser a desculpa. A cidade italiana tem 8 km, bem maior que o Pavão-Pavãozinho que vejo da minha janela. Construída entre os séculos 16 e 17,  foi habitada por australianos e era até um povoado pobre até ser descoberta como ponto turístico e cenários de filmes como "Only you", "Sob o sol da Toscana", " O talentoso Mr. Ripley". Aqui, tudo é mais sem cor,  sem charme e o que aparece no cinema, são as cenas de violência. Deveríamos importar esse tipo de cultura e pensamento. Uma dica: ao chegar de car...

Ceraudo: um oásis na Calabria profunda

A Calabria, no sul da Itália, não é um rota turística muito comum. Para nós, brasileiros, por causa da imigração, existe uma ligação maior dado o número de habitantes desta região que veio para cá nos séculos 19 e 20. Eu mesma tenho sangue calabrês em minhas veias por parte do meu avô paterno. O valor sentimental foi reforçado pelo casamento e por ter ido tanta vezes lá, por causa dos meus sogros. Esta viagem, a "descoberta" ficou por conta da Tenuta Ceraudo , na pequena Strongoli, vizinha a Crotone, cidade onde minha sogra ficou hospitalizada e acabou falecendo. O motivo, que não era um dos mais felizes, acabou se convertando em um dia de verdadeiro oásis em meio a uma propriedade lindíssima com oliveiras e vinhedos centenários, um restaraurante estrelado e uma família acolhedora. Sim, como manda a boa tradição italiana, a alma de um lugar corresponde a de seu dono. Neste caso, o nosso anfitrião Roberto. Ele poderia ter sido apenas mais um agricultor da região ou até se torn...