Texto lido em missa de sétimo dia no dia 18 de maio de 2012
“A vida me ensinou a
dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.” (Charles Chaplin)
Ao subir neste altar para lembrar meu pai,
o avô, o irmão, o tio, o amigo, o corinthiano poderia escolher o caminho da
tristeza, da dor, da saudade imensa que me corroí o coração, mas isso não faria
juz a memória dele e tudo que ele me ensinou.
Meu pai tinha muitos defeitos, mas todos
eles se apagavam no seu sorriso aberto e sincero que recebia a cada um de nós.
Naquela casa, na Penha ,que sempre esteve aberta para quem quer que fosse: seus
amigos, meus amigos, amigos da minha irmã, das minhas sobrinhas. Churrasco,
caiprinha para os genros e se tivesse um joguinho de futebol, melhor ainda.
Posso aqui lamentar que ele não verá o
Corinthians ser Campeão da Libertadores, mas prefiro lembrar do estádio lotado
da vitória de 1977, quando esperamos vinte anos para esperar a voltar se
campeão. Ou ainda do nosso último dia de estadio, no mesmo Pacaembu, onde
levamos o Francisco para entrar no campo e vimos o Ronaldo bem de pertinho.
Lembro ainda dos meus tios Valdimir, Biro-Biro, Rivelino, que estacionavam na
frente da nossa casa na Coronel Meirelles e pediam conselhos sobre suas
carreiras que não tinham o glamour de agora e nem tanto dinheiro, mas com
certeza a mesma paixão.
Meu pai não irá no Itaqueirão ver a
abertura da Copa, mas eu assisti em seu colo do telão no ginásio do Corinthians
a primeira Copa transmitida a cores onde não tinha Neymar, mas Pelé reinava
abosluto. Lembro ainda dele me consolando em 82 quando um tal de Paolo Rossi
acabou com a nossa alegria e mesmo sendo um carcamano como nós, não
acreditávamos que podiamos perder daquela forma para a Itália.
Nesta segunda-feira, meu pai também não irá
ensaiar no coral que ele amava tanto cantando sem parar as músicas
sertanejas…não essas mudernas de Luan Santana, mas as de raízes de Tonico
Tinoco, Inezita Barroso, Sérgio Reis. Vou cantar com gosto o “Menino da
Porteira” e toda vez que ouvir uma viola tocar e que ele mal aprendeu a tocar, vai ser como uma homenagem
aquele que fez da música seu despertar.
Posso aqui ficar muito triste porque meu
pai não irá ver meu filho nascer. Mas só vou lembrar do que marido sempre disse
que nosso filho terá o físico e sua beleza. Vou recordar aqui da alegria que
ele teve quando as netas nasceram. De como aninhou as duas nos seus braços. Como
foi motorista em todas as horas que a Aline e a Victoria precisaram. Do orgulho
em vê-la se formar comissária de bordo e de assistir a pequena Vicky dançar
quadrilha.
Posso lamentar profundamente, que ele não
estará na festa de casamento do Lica, em presença física, mas prefiro recordar
de ele entrando feliz com minha irmã na igreja há mais de 25 anos, de
também ter me conduzido ao altar, mas acima de tudo de ter renovado os votos de
50 anos de casado com minha mãe o ano passado. Com ela, ele se casaria mil
vezes de novo. Tive o privilégio de testemunhar 51 anos de amor, de perdão, de
carinho, de ternura e acima de tudo de admiração. Não tinha um dia que eu não
ligava para casa e ele me dizia fale com sua mãe. Era uma amor tão profundo e
raro hoje em dia. Sei que para ela será mais dificil de todos nós suportar a
sua ausência. O entra e sai de casa. O rádio ligado para dormir. Os beijos
dados a qualquer hora. Uma vida toda de companherismo. De amizade. De estar
junto em todos os lugares e momentos. Mas tenho certeza que serão esses
momentos que ela vai guardar e puxar em sua memória quando a dor apertar
demais.
Posso ficar muito triste na próxima vez que
embarcar para a a Itália e pensar que ele não está no avião comigo. Mas prefiro
lembrar da viagemq que fizemos juntos com toda nossa familia e de todos os
outros lugares que ele visitou com minha mãe nao esquecendo de suas viagens
anuais a Aguas Quentes que ele amava.
Podemos chorar mais ainda que ele não está
aqui nesta igreja com seus amigos querido. Mas prefiro lembrar de como fez bem
a eles participar do encontro. De como ficavam felizes em vir aqui de tão longe
para ir a missa, ao coral, para trabalhar, para a festa dos povos. Lembro da
gincana onde corremos São Paulo para fazer o maior pão que podíamos para que a
nossa equipe ganhasse. Agora, o arroz de festa acabou. Mas foram tantos bingos
ganhos, tanta dedicação, tantos amigos feitos que me recuso acreditar que isso
se apaga porque ele não está aqui hoje.
Ele não vai vender mais carne, não vai
fazer mais rolo, não vai mais fazer cooper, não vai reclamar que o almoço não
está pronto a uma da tarde. Porém, ele vai estar presente em cada gesto de
solidariedade, de generosidade, de humilidade que cada um de nós fizermos daqui
em diante.
No hospital, ele dizia que iria vir em
todas as missas agradecer as orações que fizemos por ele. Nossos desejos foram
atendidos. Ele esteve ali por 24 dias e por cada prece, Deus mandava um anjo em
forma de médico, cito nominalmente drs William e André, dras Maria Luiza,
Tatiana, Patricia e Elisabetta e santos transvertidos de enfermeiros que o
acariava a cada picada, que tinha uma palavra de ânimo a cada remédio dado, que
nos momentos mais difícies não deixaram a palavra esperança escapar de nossas
bocas. Posso chorar lembrando esses momentos, mas durante todo esse período, vi
meu pai chorar duas vezes: uma de exaustão para esperar ser atendido no PS do
HC e outra de felicidade, quando recebemos a noticia da transferência para o
Instituto do Câncer.
Este ano mal celebramos os 50 anos da minha
irmã e do meu cunhado. Nosso Dia das mães foi bem estranho. Mas fizemos uma
opção pela vida e pelo amor e é isso que a partir de agora vamos celebrar a
cada 12 de maio, o dia do Miro. Miro de amor, de alegria, de respeito e de
gratidão. Obrigada meu pai! Obrigada a todos vocês por participar desta etapa
de vida que foi uma festa! Tem festa lá no céu faz uma semana.
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