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O dilema e a beleza no cinema

Aqui no Rio, é sempre muito díficil ir ao cinema. A cidade é exógena. Te chama para fora. Principalmente com o sol. Nestes dois dias de chuva, consegui ver "A Separação" e "A Música sengundo Tom Jobim". São filmes distintos, mas com uma intensidade dramática muito parecida.  No primeiro, não é apenas um retrato da sociedade iraniana, mas da alma humana. Todos os personagens são tão íntegros em suas convicções, crenças, caráter que aquela nossa mania de apontar o que é certo e errado se dilui a cada cena. Quando se pensa em tomar partido de um, aparece um detalhe, um olhar, uma frase que faz ou mudar de ideia ou duvidar que o partido tomado é o melhor. O público é colocado na posição de juiz mas é tão incômodo, pois a cada 24 quadros, os personagens se mostram mais humanos: sofrem, disfarçam, mentem, refletem, se expõe, tornam a mostrar seus sentimentos, escondem novamente. Um carrossel de almas refletidas em uma câmera frenética, intensa, acusadora. A gente sai forçado por entender que não é tão simples assim viver preto no branco. Se neste filme a visão da alma humana é tão bruta, no do Tom, a mesma alma é exposta com toda a sua beleza transformada em música. Foi bom conhecer esse Tom jovem, criativo, globalizado, humano. Tudos isso só com  suas canções interpretadas pelos mais diversos cantores em todas as línguas possíveis. Senti falta de João Gilberto, mas havia lido que ele não tinha liberado as suas imagens, mas não sei se pelo mesmo motivo também não apareceu Maria Bethânia. Como acho ela uma grande intérprete de Tom, deixo aqui minha contribuição ao Nelson Pereira dos Santos, diretor do lindo documentário :)

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